AbiogásNews – Junho – 2021

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Entrevista: Alessandro Gardemann, presidente da ABiogás

 

“O biogás é imbatível na transição energética”

 
No momento em que o Brasil registra (mais) uma crise hídrica, com despacho termelétrico constante e crescente, a ABiogás promove seu Seminário Técnico para mostrar os atributos do biogás. A escolha temática não poderia ser mais pertinente. Afinal, o energético vem ganhando cada vez mais espaço no agronegócio, com a geração distribuída de energia elétrica; tem produção descentralizada – pode ser gerado em qualquer lugar onde houver biomassa; pode substituir o gás natural fóssil não apenas na geração elétrica, mas também como combustível em veículos; e, além disso, é carbono neutro.
 
Entretanto, esses atributos ainda são pouco conhecidos. E é isso que Alessandro Gardemann, presidente da ABiogás, quer mudar. Por isso a entidade vem agindo cada vez mais na disseminação de informação e conhecimento sobre o energético. Seja promovendo webinares e seminários, seja participando de debates sobre a matriz energética brasileira, seja conversando – e convencendo – empresas de que não se pode pensar em um futuro de energia barata e limpa sem incluir o biogás.
 
Nesta entrevista, Gardemann reforça as qualidades do energético, como a previsibilidade de preços e sua tremenda capacidade de fornecer energia elétrica firme e na base. E comemora o crescente interesse na fonte.

 

Qual é a importância de se discutir os atributos do biogás?
 
Cada fonte tem sua contribuição ao sistema energético. O biogás, assim como as demais fontes, tem seus atributos específicos. Se pensarmos na produção de energia elétrica, a fonte e seus atributos são o que definem o valor que é agregado ao sistema.
 
Por isso, acreditamos que temos de diferenciar e reconhecer o valor que o biogás pode dar ao sistema elétrico, com os seus atributos próprios que o diferenciam das demais fontes. Daí ser tão importante promovermos este seminário para mostrar essas qualidades específicas do biogás.

 

As características do biogás ainda são pouco conhecidas, na sua avaliação?
 
Com certeza. Infelizmente, o biogás ainda é muito pouco conhecido, apesar da grande expansão no uso dessa fonte que estamos registrando no Brasil nos últimos anos. Temos um potencial de produção de biogás gigantesco, como a ABiogás vem mostrando, mas a fonte ainda é uma incógnita para boa parte da sociedade brasileira, e mesmo para empreendedores do setor energético.

 

Uma dessas qualidades do biogás é o ganho ambiental de seu aproveitamento. Mas essa característica vem sendo valorada corretamente?
 
Não, e esta correta valoração é a chave para aumentar o aproveitamento do biogás e ampliar o seu papel no setor energético brasileiro.
 
A geração de energia elétrica com o biogás tem todas as características da produção de eletricidade com o gás natural, com a “pequena” diferença de o biogás ser uma fonte renovável de energia, ao contrário do gás natural, que é de origem fóssil. O biogás, portanto, tem todas as características que a termeletricidade a gás natural tem. Ele também é capaz de dar segurança ao sistema elétrico, com despacho de energia elétrica disponível de acordo com as necessidades de consumo de eletricidade.
 
Além disso, o biogás tem previsibilidade de preço. E uma vantagem que o gás natural de origem fóssil não tem: seu valor não é atrelado à cotação do dólar ou aos preços no mercado internacional. Vimos recentemente a Petrobras promover um reajuste de 39% na molécula do gás, e isso gerou uma imensa movimentação no governo e uma reação extremamente negativa no mercado, ainda mais em um momento em que a economia brasileira tenta se recuperar da crise provocada pela pandemia de covid-19 e que as termelétricas estão sendo despachadas na base, por causa da falta de água nos reservatórios hidrelétricos. O impacto foi tão grande que a Petrobrás propôs novas formas de reajustar o preço do gás natural. Com o biogás, essa situação não ocorreria, porque seu preço é definido localmente.
 
Assim, o biogás também traz segurança energética. Além disso, sua produção é descentralizada, ao contrário do que ocorre com o gás natural. Estamos presenciando há tempos grandes discussões envolvendo a implantação de termelétricas no interior do país, mas o gás natural é produzido majoritariamente no litoral brasileiro, e em alto mar. Com o biogás essa discussão desaparece, porque ele pode ser gerado em qualquer lugar do Brasil onde haja biomassa, que, sabemos, está disponível nos quatro cantos do país.
 
Essa disponibilidade de produção do biogás em qualquer região também evita a necessidade de implantação de gasodutos de grande extensão, e com isso reduz os custos de implantação dessas redes.
 
A Medida Provisória que trata da capitalização da Eletrobras, por exemplo, está propondo a instalação de termelétricas a gás no interior, mas elas vão precisar de combustível. Se for escolhido o gás natural, terá de haver investimentos em grandes dutos. Mas, se se optar pelo biogás, basta investir na produção local do energético.
 
E a descentralização na geração elétrica, na ponta, no local de consumo, também dá ao biogás outra vantagem, que é reduzir os custos com transmissão de energia elétrica.

 

A descentralização parece ser uma característica fundamental, ainda mais quando se registra mais uma crise hídrica no país, com consequências para o setor elétrico.
 
Sim, sem dúvida. Mas, além da descentralização, precisamos lembrar que o biogás fornece uma energia firme, que não sofre com altos e baixos de oferta. Ninguém vai parar de produzir resíduos, que são a matéria-prima de produção do biogás. Pelo contrário: o agronegócio brasileiro, que tem um imenso potencial de geração de biogás, não para de se expandir e de ampliar sua atuação; a população brasileira, que gera resíduos sólidos urbanos e esgoto, continua em crescimento.
 
O nosso sistema elétrico está vivendo uma nova crise, e a tendência, com as mudanças climáticas, é que as crises hídricas ocorram com frequência cada vez maior. Por isso, vamos precisar reconhecer que o biogás cumpre os requisitos necessários para garantir energia elétrica aos brasileiros com previsibilidade de custos. Afinal, como já mencionei, é uma fonte desdolarizada, ao contrário de outras, e que garante energia firme, na base.
 
Outro ponto que precisa ser verificado é a velocidade de implantação dos projetos de geração elétrica. O biogás acelera a implantação de termelétricas, oferecendo energia ao sistema em menos tempo. Em um curto espaço de tempo podemos criar uma grande base de energia a biogás, desde que se implemente, claro, a política pública correta que estimule o investimento nessa fonte.

 

Finalmente tivemos a aprovação da Lei do Gás. O que se espera agora para o setor?
 
Precisávamos do marco regulatório, e agora temos um. Um dos principais atributos do biogás é a sua flexibilidade de gerar energia elétrica e também combustível, com o biometano. Essa flexibilidade, esse uso múltiplo, é muito complementar ao sistema.
 
A Lei do Gás, ao incentivar novos ofertantes, estimula muito o crescimento da participação do biogás na oferta energética e o desenvolvimento do setor. Era algo que esperávamos há muito tempo, e finalmente está acontecendo.
 
É importante também reforçar que o biogás não compete com o gás natural, não se trata de “ou um, ou outro”. O biogás tem complementaridade com o gás natural. E pelas características que já listei anteriormente, é um energético que pode abrir mercados para o uso do gás. Ou seja, é uma fonte estruturante, que cria mercados.

 

Mas, por outro lado, a regulação da geração distribuída está travada. Como isso afeta o setor de biogás?
 
Dada essa característica de uso múltiplo e de despachabilidade do biogás, o impacto da mudança regulatória que está sendo feita para a geração distribuída é menor. Agora, certamente a falta de previsibilidade, de uma regra de transição, atrasa investimentos.
 
Entretanto, considero que esse impacto, felizmente, é menor no nosso segmento, devido à essa diversidade de uso do biogás.
 
O biogás não é uma fonte intermitente, como são outras renováveis. Em qualquer cenário futuro da matriz energética brasileira, essa qualidade será levada bastante em consideração. Assim, o biogás tem um grande diferencial extremamente favorável, independente do que ocorrer com a regulação da GD.

 

A ABiogás tem ampliado bastante sua atuação. Quais são os planos da associação para o próximo semestre?
 
Estamos em um ritmo bastante acelerado e vamos manter essa atuação. Temos observado um interesse crescente pelo biogás e pela associação, e estamos recebendo novos associados, empresas de vários portes.
 
Agora temos entre nossos associados a Comgás, que é a maior distribuidora de gás canalizado do país, a Unilever. São companhias referência em seus setores de atuação e estão muito interessadas em desenvolver biogás no Brasil. Isso é muito importante, pois reforça todo o potencial do biogás.
 
A Comgás, por exemplo, anunciou uma parceria com a Scania, que vem desenvolvendo o mercado de caminhões a GNV e biometano no Brasil. O objetivo é ampliar o uso do gás natural e do biometano em caminhões e ônibus.

 

A covid-19 acelerou as discussões sobre transição energética. Como o setor de biogás e biometano pode se beneficiar desse cenário?
 
Estamos falando de um combustível renovável, com previsibilidade de preços e capaz de gerar energia elétrica firme e despachável a qualquer momento.
 
Um combustível armazenável, que pode substituir o GLP, que, além de ser fóssil, ainda é importado, o que o deixa à mercê das flutuações do mercado internacional de petróleo.
 
Pode substituir também óleo diesel, extremamente poluente e também importado, e substituir gás natural de origem fóssil.
 
O biogás é um combustível desdolarizado e descentralizado. Isso significa um imenso potencial de redução de custos.
 
Ou seja, estamos falando de uma fonte renovável, carbono neutro, imbatível no contexto de transição energética. E o Brasil é um dos líderes mundiais em potencial de biogás. Por isso estamos propondo todas essas iniciativas.

 

Havia uma certa dificuldade em relação à fabricação e ao fornecimento de equipamentos para biogás e biometano no país. Essa situação mudou?
 
Estamos criando a cadeia de valor no país. Ainda há muito a se fazer, mas, aos poucos, estamos atraindo fabricantes para o país, criando a cadeia de fornecedores de equipamentos. 

Para participar do seminário, faça aqui sua inscrição: abiogas.org.br/seminario-tecnico-da-abiogas/
 

Resumo

 
UTE da Raízen Geo Biogás é a primeira térmica a biogás do país a receber certificação de energia renovável
 
A UTE Biogás Bonfim, unidade da Raízen Geo Biogás localizada em Guariba (SP), foi certificada pelo I-REC Standard. Uma das maiores plantas de biogás do mundo, com 21 MW de capacidade instalada, a térmica é a primeira entre as 200 usinas já certificadas pelo I-REC Standard que utiliza biogás para geração elétrica.
 
O I-REC Service é um sistema global de rastreamento de atributos ambientais de energia projetado para facilitar a contabilidade confiável de carbono, para Escopo 2, compatível com vários padrões internacionais de contabilidade de carbono. No Brasil, a certificação é emitida pelo Instituto Totum e dá permissão para emissão e transferências de I-RECs (cada I-REC equivale a 1MWh de energia gerada).
 
Segundo o diretor do Insituto Totum, Fernando Lopes, a Certificação I-REC da UTE Biogás Bonfim é um marco para o Programa Brasileiro de Certificação de Energia Renovável.
 
A Raízen Geo Biogás é fruto da joint venture entre Raízen e Geo Energética. A UTE certificada foi inaugurada em outubro passado e fica localizada junto à Usina Bonfim, da Raízen, com uma moagem de mais de 5 milhões de toneladas de cana. A térmica utiliza biogás produzido a partir de vinhaça e torta de filtro, resíduos do processo sucroalcooleiro.
 
Dos 138 mil MWh por ano de capacidade instalada, 96 mil MWh serão fornecidos ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em contrato obtido pela Raízen no leilão A-5 de 2016. O excedente de energia poderá ser negociado no mercado livre ou outros contratos.
 
Para o CEO da Geo Energética e presidente da ABiogás, Alessandro Gardemann, a certificação aponta para o crescimento do mercado e consolida o biogás entre as fontes de energia renovável com maior potencial de crescimento na matriz brasileira.
 
“É a hora do biogás. Estamos crescendo e conquistando marcos importante, como a certificação I-REC para a primeira usina do energético no país. O Brasil tem o maior potencial para o aproveitamento do biogás no mundo, mas não utilizamos nem 2%. Acredito que o momento é de virada, com mais usinas certificadas, e novos empreendimentos surgindo. A energia gerada por biogás pode ser produzida durante o ano inteiro, o que oferece estabilidade energética para o sistema elétrico nacional e impacta o desenvolvimento econômico do país de maneira sustentável”, comentou.

 

Scania e Comgás firmam parceria para aumentar frotas de caminhões e ônibus a gás
 
A montadora Scania e a Comgás, a maior distribuidora de gás natural do país, anunciaram uma série de ações conjuntas para acelerar o desenvolvimento do mercado de GNV e biometano para caminhões e ônibus.
 
Inicialmente, as empresas irão mapear os corredores e rotas logísticas para aumentar o número de pontos de abastecimento de GNV e biometano no estado de São Paulo. A parceria também inclui a avaliação de instalação de postos em garagens de frotistas e/ou operadores de ônibus, visando dar ainda mais competitividade para os veículos pesados movidos a gás.
 
“Esta iniciativa é fundamental para impulsionar o desenvolvimento da infraestrutura de distribuição e ampliar as opções de abastecimento”, diz Christopher Podgorski, presidente e CEO da Scania Latin America. “Estamos empenhados em promover a transformação sustentável do setor de transportes e tornar os combustíveis alternativos ao diesel o novo normal, considerando os benefícios sociais, ambientais, econômicos e financeiros que este caminho pode gerar”, completa o executivo.
 
Para o presidente da Comgás, Antonio Simões, a iniciativa irá potencializar o mercado de gás no país. O executivo destaca que a empresa está investindo na ampliação da rede de dutos em polos estratégicos onde há uma demanda iminente pelo energético. “O trabalho conjunto com a Scania é importantíssimo para desenvolver e estimular ainda mais a utilização desse combustível nas frotas de veículos comerciais pesados”, afirma o executivo.
 
A Comgás também planeja inserir o biometano na rede de dutos.
 

B2W Digital inicia operação com caminhões movidos a biometano e GNV
 
A B2W Digital, dona das marcas Americanas, Submarino, Shoptime e Sou Barato, iniciou a operação de uma frota de caminhões movidos a biometano e GNV, a primeira do e-commerce no país. A partir de junho, serão dez caminhões circulando por diferentes rotas da região Sudeste com a tecnologia.
 
Com capacidade de transportar até 23 toneladas de carga, oito veículos da frota já realizavam viagens diárias em maio para garantir as entregas das marcas da B2W. Os caminhões circulam entre as capitais dos estados da região Sudeste, ligando os centros de distribuição aos hubs.
 
Em uma viagem no trajeto Rio de Janeiro a São Paulo usando biometano, cada veículo evita a emissão de cerca de meia tonelada de CO2 equivalente na atmosfera, reduzindo as emissões em até 95% em comparação com o modelo movido a diesel.
 
“A frota de caminhões com tecnologia mais sustentável faz parte do nosso compromisso de ter uma operação que gere menos impacto ambiental, em linha com a estratégia de redução de emissões de CO2 da B2W. Temos como objetivo ampliar este tipo de frota na medida em que mais regiões do país passarem a contar com postos com GNV e biometano”, explica Welington Souza, diretor geral da LET’S, plataforma de gestão compartilhada dos ativos de logística e distribuição da Americanas e B2W.

 

Basf e 3tentos realizam operação inédita com crédito de descarbonização
 
Em parceria inédita no mercado agrícola, a Basf e a 3tentos, grupo gaúcho do agronegócio, desenvolveram um novo modelo de operação. Produtora de biodiesel de soja desde 2014, a 3tentos tem direito a emitir CBIOs e vai transferi-los à Basf, em troca de insumos agrícolas. As duas empresas já realizam operações tradicionais de barter, como é conhecida essa troca, utilizando soja.
 
A Basf começou a desenvolver este modelo de barter no ano passado, com base no RenovaBio. O ingresso no mercado brasileiro de carbono permite que a empresa atenda às necessidades dos clientes e incentive atividades voltadas para a produção de energia renovável no país.
 
“O barter com CBIOs apoia os compromissos ambientais assumidos pelo país. Além disso, reforçamos o nosso caráter de empresa inovadora e parceira dos clientes”, afirma Patrícia Andreoni Ambrosio, gerente sênior de Operações de Negócio da Divisão de Soluções para Agricultura da Basf no Brasil.
 
Com a negociação, a 3tentos utiliza os CBIOs a que tem direito como ativos de troca. “Para nós, é motivo de orgulho estarmos na vanguarda de uma operação inovadora junto com a Basf. Isso nos possibilita realizar esse primeiro negócio de compra de insumos por meio de CBIOs, originados a partir da produção de energia limpa”, diz Benhur Vione, diretor de Insumos da 3tentos.
 
Criada em 1995, a 3tentos tem sede em Santa Bárbara do Sul (RS) e atua em três pilares: varejo de insumos agrícolas (sementes, fertilizantes e defensivos), originação e trading de grãos e industrialização da soja. Em 2014, começou a produzir biodiesel na sua planta em Ijuí (RS) e, em 2019, fortaleceu sua produção com a unidade de extração de óleo e farelo de soja em Cruz Alta, também no Rio Grande do Sul.

 

Está por vir

Abiogás prepara a oitava edição do Fórum do Biogás, mais um evento
que pretende disseminar informação sobre o energético e ampliar sua participação na matriz energética brasileira. Relembre a edição de 2020 clicando aqui: https://youtu.be/gDixiITRfck

 

HIGHLIGHTS

1,8 bilhão de m3

Volume total de biogás produzido no ano de 2020

 

30%

Percentual de crescimento do setor de biogás em 2021, conforme projeções da ABiogás

 

44,1 bilhões de m3

Potencial de produção anual de biogás no Brasil projetado pela ABiogás

Comente aqui:

Sobre a Abiogás

Desde 2013, a ABiogás é o canal de interlocução entre o setor de biogás e sociedade civil, os Governos Federal e estaduais, as autarquias e os órgãos responsáveis pelo planejamento energético brasileiro.

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